Alguém já se sentou para escrever um artigo com a sensação de que estava fadado a ‘chover no molhado’?  E, ao mesmo tempo, com a convicção de que deveria colocar as coisas ‘preto no branco’, pois, como dizia um colega meu, “o óbvio somente é óbvio depois de conhecido”. Pois bem, vou martelar em conceitos conhecidos, mas que hoje cobram uma importância até há pouco inimaginável. Talvez porque, por causa da pandemia, hoje esses conceitos se apresentam em posições diversas no tabuleiro do xadrez econômico deste início de 2021.

A parte mais óbvia: com o atual nível de Selic e ainda contando que o mercado espera que o COPOM pratique alguns aumentos no futuro próximo, muitos dos investidores conservadores, cuidadosos e fanáticos da renda fixa estão órfãos. Aqueles que não se sentem assim, é porque não estão prestando atenção no cenário econômico-financeiro. A consequência também mais ou menos óbvia: todos os assessores de investimentos, sem qualquer exceção, vêm aconselhando seus clientes a diversificar os portfólios de investimentos e, substancialmente, a assumir maiores riscos, enveredando por produtos de renda variável.

Neste cenário, aquelas empresas cujo planejamento inclui investimentos de média para longa maturação, terão (como sempre tiveram) necessidade de buscar recursos financeiros para financiar o seu crescimento e seus planos de expansão, seja de forma orgânica ou por meio de aquisições. A solução é ir aos bancos? Neste caso, o spread não se mostra tão generoso quanto o COPOM na formação da taxa final efetiva de empréstimos. Ir ao BNDES? São linhas restritas e para certo tipo de investimento em plantas e equipamentos. Para onde rumar então? Uma tempestade perfeita de bonança se distingue no horizonte: captar investimentos via o mercado de capitais. Em outras palavras: abrir o capital, lançar ações no mercado.

A conjuntura atual da taxa de juros no Brasil, fez com que as ofertas de capital quebrassem recordes mesmo no meio de um ano de pandemia por conta da COVID, e com PIB crescendo pouco acima de 4%. Ademais, as perspectivas são de que os números de oferta serão ainda maiores para 2021, não obstante a manutenção do cenário de crise.

De qualquer forma, para as empresas que pretendem ir para o mercado de capitais, obviamente não deverão ou terão condições de fazê-lo a toque de caixa. Afinal, além do planejamento dos negócios em si, a perspectiva de abertura de capital implica em um sério arranjo das condições de governança de um modo geral e, para falar da realidade atual, do trio aspectos ambientais, sociais e de governança (ESG na sigla em inglês – environment, social, governance). Há investidores que vêm tomando uma firme atitude quanto a dar preferência aos investimentos em empresas que respeitam os três aspectos acima citados.

Preparar-se para uma abertura de capital não é fácil e seguramente poderão haver empresas que, mesmo com a intenção de encarar este processo, dificilmente terão condições de fazê-lo. A ‘arrumação da casa’ em termos de governança corporativa, de controles internos (incluindo o desenho e implantação de uma robusta auditoria interna) e de adoção de princípios contábeis atuais, tornam a tarefa bastante pesada. Sabemos que, em sua grande maioria, muitas empresas não conseguem se adequar e se preparar para um IPO, somente com recursos internos; isso é praticamente impossível. Por vezes porque esses recursos internos inexistem, e contratá-los ou treiná-los demandaria muito tempo e recursos financeiros. Outras vezes por uma questão de custo-benefício, quando a administração conclui que é muito mais conveniente contratar um time de especialistas bem treinados neste tipo de lides, que tornarão este processo mais rápido e sem ‘tentativas e erros’.

No cenário internacional, no qual ainda percebemos os tremores secundários do ‘tsunami’ Trump, é interessante ver como a China não mudou substancialmente sua atitude de investimentos e comércio com muitos dos países ‘alinhados’ com o ‘trumpismo’. Para os conhecedores e observadores do afazer internacional, fica claro que os chineses enxergaram a era Trump como algo passageiro, com o qual teriam de lidar no curto prazo, mas sempre tiveram no horizonte seus interesses de longo prazo. Por que trago isto à baila? Porque a gerência estratégica das empresas não pode prescindir de um enfoque desse tipo. Decidir e agir no curto prazo, mas sempre de olho no planejamento de longo prazo. Só isto pode garantir longa e rentável vida aos empreendimentos.

No caso que nos ocupa – a possibilidade de abertura de capital para financiar o crescimento com rentabilidade -, esta regra não pode ser esquecida sob pena de fracasso, e extremamente custoso.

Conclusão resumida

O nível atual de remuneração da renda fixa está despejando rios de recursos para a renda variável. É a ocasião perfeita para que as empresas procurem a abertura de capital como via de financiamento do seu crescimento ou que acionistas majoritários aproveitem a ‘onda’ como ‘via de saída’ para realizar lucros e/ou diversificar investimentos. Mas o processo não é brincadeira. Quem decidir se aventurar, tem de se apoiar em um exército de profissionais: advogados, auditores, consultores, bancos, assessores financeiros e, não menos crucial, profissionais que preparem a empresa nos aspectos ESG e contábeis.

 

  Ricardo Rodil – Lead Partner – C Markets

Atua há mais de 40 anos na execução, gerenciamento e direção de trabalhos de auditoria e consultoria. Possui sólida experiência em consultoria estratégica a empresas estrangeiras no Brasil, trabalhos de due diligence, assistência pericial de parte em processos judiciais e arbitrais no Brasil e no exterior, conselho fiscal e mediação com especialidade em contabilidade e finanças.

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