Há pouco menos de um quarto de século, eu, Ricardo Rodil, quase fui sacrificado na fogueira. Para minha sorte, não estávamos na época da caça às bruxas de Salem. Meu pecado? Ousei externar uma opinião que foi (indevidamente) traduzida pelo jornalista que me entrevistara, com um bocado de tempero sensacionalista, como “atualmente, os auditores estão fazendo auditoria por metro”. Consegui esclarecer o que eu realmente havia dito e, com isso, me salvei de alguma reprimenda profissional pelos órgãos de fiscalização da profissão. Ufa!

Mesmo que seja um tanto tedioso, vamos repassar a história dessa profissão tão pouco compreendida pela sociedade, principal beneficiária da função do auditor independente. Na época da entrevista acima citada, o exame das demonstrações contábeis de uma entidade era iniciado avaliando os controles internos. De um modo geral, este primeiro passo resultava no que chamávamos de ‘carta de controles internos’, na qual os auditores relatavam as falhas observadas e sugeriam medidas para melhorar os controles onde as falhas tinham sido observadas.

Uma visão crítica sobre a avaliação dos controles do modo como se fazia naquela época. Substancialmente, essa avaliação era feita baseada em questionários que formulavam perguntas sobre cada área da entidade às quais o auditor respondia SIM/NÃO/NÃO APLICÁVEL. E, também, a ‘regra de ouro’ da época rezava que toda resposta “NÃO’ deveria corresponder, quase obrigatoriamente, a uma falha dos controles internos, que devia ser reportada à Administração da entidade auditada.

A seguir, os auditores efetuavam testes sobre a contabilização de operações e sobre a ‘validade’ dos saldos contábeis. Aquilo que era basicamente uma bateria de testes substantivos. A partir daí, formulavam-se as conclusões de cada área. O encarregado do exame analisava o teor das conclusões e, com base nisso, exarava a conclusão final, que dava sustentação ao que, então, chamávamos de ‘parecer do auditor’ e que poderia ser limpo, com ressalvas ou conter uma abstenção de opinião. Vamos convir, um processo um tanto ‘quadrado’.

Mas nem tudo estava perdido. A International Federation of Accountants (IFAC) já vinha trabalhando naquilo que hoje chamamos de normas internacionais de auditoria, adotadas pelo CFC – Conselho Federal de Contabilidade do Brasil há mais de uma década e, desde então, constantemente atualizadas e aprimoradas. Qual o grande tesouro destas normas? A auditoria baseada em riscos.

Resumindo as normas que hoje vigoram em quase todo o mundo podemos dizer que o processo consiste nos seguintes passos: (i) fazer um levantamento das características e operações da entidade auditada (inclusive aspectos sobre, por exemplo, a confiabilidade da Administração); (ii) analisar como essa realidade pode gerar riscos à integridade das demonstrações contábeis, quer decorrentes de erro ou fraude; (iii) analisar como isso tudo pode resultar no principal risco de auditoria: o de emitir um relatório errado, ou seja, emitir uma ressalva inadequada ou não ressalvar um aspecto que deveria sê-lo; (iv) a partir desse ponto, avaliar os controles internos que operam de maneira relevante para reduzir esses riscos a um nível aceitável; (v) efetuar os trabalhos de auditoria sobre esses controles internos relevantes e sobre as operações e saldos que apresentam os maiores riscos e, muito importante, dosar os trabalhos de auditoria em função da relevância dos riscos identificados; (vi) concluir a respeito de cada área e, depois, concluir sobre as demonstrações contábeis como um todo.

Dá para perceber claramente a diferença dos enfoques, certo? Com mais uma vantagem: o processo baseado nas ‘novas’ normas de auditoria tende a ser muito mais eficiente que o antigo, tanto para o auditor independente quanto para o pessoal da entidade auditada. E aqui estamos nós na história da auditoria em que nos resta ainda uma dúvida: acreditamos que nem todas as firmas brasileiras de auditoria estão operando efetivamente a auditoria baseada em risco, o que pode ser um desperdício de tempo e talentos.

Mas a história não para por aqui. Recentemente, a tecnologia tem nos trazido novidades disruptivas: Data Analytics, Inteligência Artificial e robótica, só para citar algumas. Isto deverá revolucionar e, de fato, já está revolucionando a forma de realizar auditoria de demonstrações contábeis. O conceito de amostragem pode cair por terra ou ser substancialmente modificado, pois, aplicando Big Data e os conceitos de Data Analytics, estratificar ou checar 100% de enormes universos de informações se tornou possível. Alguns processos técnicos de auditoria poderão ser efetuados por robôs. Alguns programas de auditoria informatizados poderão lançar mão de inteligência artificial para aprender (machine learning) a modificar esses mesmos processos. E por aí vai.

Os aspectos resumidos no parágrafo anterior nos convencem que as equipes de auditoria deverão ser crescentemente multidisciplinares, incluindo profissionais com formação em tecnologia da informação, tenham estes formação contábil ou não. Só uma coisa está garantida: os auditores independentes não vão morrer de tédio nos tempos que virão.

 

  Ricardo Rodil | Lead Partner Capital Markets

Atua há mais de 40 anos na execução, gerenciamento e direção de trabalhos de auditoria e consultoria. Possui sólida experiência em consultoria estratégica a empresas estrangeiras no Brasil, trabalhos de due diligence, assistência pericial de parte em processos judiciais e arbitrais no Brasil e no exterior, conselho fiscal e mediação com especialidade em contabilidade e finanças.

  Sérgio Oliveira |  Audit & Risk Partner 

Possui mais de 22 anos de experiência nas áreas de auditoria e riscos em inúmeros projetos desenvolvidos de auditoria, aquisições e fusões, SOX, riscos, controles internos e fraudes, em empresas nacionais e multinacionais de diversos segmentos. Sócio líder das práticas de auditoria e riscos da Crowe no Brasil. Registrado no Conselho de Contabilidade – CRC/SP, cadastro Nacional de Auditores Independentes – CNAI e registrado na Comissão de Valores Mobiliários – CVM.

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