Já que estamos na era das siglas, lá vai mais uma: EPA! Traduzindo, Emprego, PIB e Ambiente. Deixe-me começar pelo início: minha proposta central é deixemos de aplaudir os aumentos do PIB como um bando de alienados. Soa esquisito, certo?   Então vamos colocar alguns conceitos, do modo mais didático possível. Esclareço que sei da existência de diversos índices que medem felicidade, resiliência, desenvolvimento humano, e assim por diante. Não faço pouco desses indicadores, mas meu propósito neste ensaio é calar muito mais fundo na organização e desenvolvimento das sociedades do que hoje chamamos de ‘humanidade’.

Primeiro assunto EPA: emprego.   Já não restam dúvidas de que os avanços tecnológicos vão diminuir, cada vez mais e com maior intensidade, a necessidade de mão-de-obra, tanto para a produção de bens quanto para a prestação de serviços.   Esta é uma regra geral e ineludível.   Já escrevi sobre este assunto, mas vou resumir aqui a única saída possível: as horas trabalhadas por cada pessoa (empregada ou como autônoma) terão de diminuir, sem diminuição da respectiva remuneração.   Vão me tachar de comunista?   Sugiro trocar por realista, e extremado defensor da economia de mercado.   Parafraseando Churchill sobre a democracia, ainda creio que “a economia de mercado é o pior sistema econômico, exceto por todas as outras formas ensaiadas até agora na história”.   Não cabe no propósito deste artigo abordar os sistemas de freios e contrapesos necessários.

Segundo assunto EPA: PIB.   É impossível não reconhecer que nossa economia se tornou o que podemos chamar de ‘economia do desperdício’.   Esse desperdício provém de uma série de fatores, muitos deles inevitáveis à primeira vista.   Um dos fatores é a iniquidade na distribuição da renda, tanto entre países quanto dentro das diversas jurisdições.   Os mais privilegiados tendem a comprar bens e serviços que vão bem além das suas necessidades.   Parte desses bens e serviços são desperdiçados ou subutilizados e muitas vezes servem apenas para satisfazer vaidades (desde já, um pecado).   Em níveis macro, numa visão de sociedade, vejo essa característica indissoluvelmente associada aos ‘festejos’ dos aumentos do PIB.   E proponho uma utopia: produzir menos, utilizar melhor, distribuir mais equitativamente; ergo, desperdiçar menos.   É este, sem dúvida, o problema mais difícil de equacionar e rever, pois depende de uma mudança de mentalidade que teria que ser disseminada pelo mundo inteiro.

Vamos a um exemplo absurdo, mas a prova de tudo. Um país com 10 habitantes tem um PIB anual de $ 10.000, distribuído como se segue: 1 habitante tem uma renda anual de $ 9.991 e os outros 9, de $ 1 cada. ‘Renda per capita’ = $ 1.000. Certo? Erradíssimo. Se a gente quiser pensar como isso seria possível, sugiro pensar em escravidão, ou semiescravidão.  Sugiro fugir da tentação de pensar em soluções já ensaiadas com base no ‘socialismo’. Vamos acrescentar um complicador: as necessidades básicas de alimentação, agasalho, vivenda e defesa seriam cobertas com uma renda anual pessoal de $ 50. Qual seria o PIB anual ideal desta ‘sociedade’ com equidade na distribuição de renda?   Fácil: $ 500; ok, coloca aí $ 600, de modo a abrigar eventuais diferenças de renda dos indivíduos. Como podemos chamar o ‘excesso’ observado?   Provável desperdício por um lado; mas, mais importante, gasto irracional de recursos naturais escassos, ou seja, falta de sustentabilidade.   Acho que não precisa ser uma adolescente sueca que buscava uma desculpa para não ir à aula para entender o aspecto básico da sustentabilidade. O exemplo acima é bizarro. Multipliquem isso pelos bilhões de habitantes do planeta e terão uma ideia aproximada do que estou falando. E do motivo pelo qual proponho parar de endeusar o PIB como medida de sucesso das sociedades ao redor do mundo.

Terceiro assunto EPA: ambiente. O tema da moda, não sem uma justa causa. Em termos do que estamos tratando nestas linhas, os impactos da atividade humana no meio ambiente estão direta e proporcionalmente relacionados com a economia do desperdício. Não se tem notícias de tribos ou populações em sistemas de subsistência que tenham agredido sistematicamente o meio ambiente. Somos nós, os povos pretensamente ‘civilizados’ que renunciamos à sustentabilidade, numa atitude praticamente suicida em termos geracionais. Mesmo não gostando da palavra (que tem sido abusada por extremistas políticos) é imperioso rever a atitude ‘consumista’ das pessoas em geral. Não somos o felino da savana africana, que precisa comer 30 kg de carne num par de horas pois não sabe quando será sua próxima refeição. Teoricamente, somos mais racionais; chegou a hora de provar que é assim.

Neste cenário, impossível não lembrar dos lixões a céu aberto, do desmatamento ilegal da Amazônia, dos garimpeiros do Rio Madeira e, por que não, da atuação de boa parte dos políticos predadores que, infelizmente, não são privilégio exclusivo do nosso país.

Temos de deixar de bater palmas para o crescimento do PIB? Talvez sim. Porém não devemos esquecer que, em grande parte das utopias acima, lutaremos contra a poderosa força da ambição do ser humano. Mas este será o tema de um outro artigo.

 

  Ricardo Rodil | Lead Partner Capital Markets

Atua há mais de 40 anos na execução, gerenciamento e direção de trabalhos de auditoria e consultoria. Possui sólida experiência em consultoria estratégica a empresas estrangeiras no Brasil, trabalhos de due diligence, assistência pericial de parte em processos judiciais e arbitrais no Brasil e no exterior, conselho fiscal e mediação com especialidade em contabilidade e finanças.

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