Os impactos do ‘lockdown’ na China e da guerra na Ucrânia
Não era minha intenção, mas esta matéria vai conter alguns conceitos macroeconômicos que vão torná-la um tanto séria. Paciência. O ‘lockdown’ na China reverbera seus efeitos no mundo inteiro. É até possível que investimentos chineses em outros países sofram algumas consequências (principalmente, atrasos).

Mas nesta matéria quero me ater àquilo que tem importância capital para a humanidade: a cadeia alimentar. De uma maneira bastante rudimentar podemos descrever o lado da oferta em três passos: plantar, colher e transportar. É fácil imaginar de que maneira essas três etapas serão prejudicadas pelo modo em que o governo chinês coloca em prática sua política de ‘Covid zero’. O ‘plantar’ compreende a preparação do terreno, a adubação, o plantar/semear propriamente dito e os tratos culturais durante o crescimento até a colheita. O ‘colher’ abrange a colheita e o armazenamento (talvez transportes relativamente curtos para armazéns ou silos) até a venda. O ‘transportar’ consiste no transporte em toda sua extensão, até o alimento chegar à mesa do consumidor.

Todos esses processos dependem em alguma medida da intervenção humana ou da utilização de mão-de-obra, radicalmente menos disponível em tempos de ‘lockdown’ rigoroso, como o adotado naquele país. O plantio, a colheita e eventual industrialização na China ficam prejudicados. De outro lado, o fluxo de alimentos importados, que entrariam no meio da cadeia, também deve sofrer restrições ligadas à dificuldade de arranjar mão-de-obra. No caso das importações, devemos considerar também os impactos que a própria pandemia tem tido sobre os fretes internacionais; tanto na disponibilidade quanto nos seus preços.

Vejamos agora o comportamento do lado da procura, que em economia chamamos de demanda, termo que vou preferir nesta matéria. Reza uma ‘cláusula pétrea’ em macroeconomia que a demanda por alimentos é inelástica (a dos medicamentos também participa desta categoria). Essa inelasticidade se manifesta no fato de a demanda não obedecer (ao menos totalmente, eu acrescento) às mudanças nos preços. Exemplificando: as pessoas não vão consumir o dobro de um determinado alimento por refeição, só porque o preço caiu pela metade. Tampouco deixarão de comprar feijão porque ele ficou 30% mais caro. Seguramente haverá substituições, mas a demanda agregada por alimentos não cairá nem subirá em forma abrupta, perante variações nos preços. Isso nos leva a concluir que a demanda por alimentos pode ser qualificada como inelástica. É possível que o seja em termos relativos, não absolutos. Mas, enfim, inelástica.

Os mecanismos acima relatados são aplicáveis não somente à China, mas ao mundo inteiro. Mas, voltemos à China. Mais precisamente, à China do ‘lockdown’ rigoroso. Em se lavando em conta que o Governo chinês não conseguirá derrogar a lei da oferta e demanda, deveremos observar as seguintes condições: retração da oferta (tanto de produtos locais quanto importados) e relativa manutenção dos níveis de demanda. Em macroeconomia, isto é sinônimo de inflação. E podemos afirmar, sem medo de errar, que idênticas consequências foram, são e serão observadas em todas as economias do globo.

No cenário acima resumido, e levando em conta que ele vem entremeado com as consequências da guerra na Ucrânia, testemunhamos uma situação de escassez de alimentos, que tem levado governos a ações um tanto extremas. Uns têm acionado mecanismos para dificultar as exportações e outros (como é caso do Brasil) têm optado pela redução de impostos de importação de determinados produtos da chamada cesta básica. As dificuldades para que países produtores de alimentos reduzam as exportações resultam na menor oferta desses produtos em nível internacional. Nesta situação, há pressões inflacionárias, que medidas como as do Brasil pretendem combater ou, pelo menos, amenizar seu impacto nos preços internos.

Neste ponto, é preciso considerar um aspecto importante: as medidas acima descritas tendem a reduzir os preços internos de uma maneira linear. Ou seja, o feijão, a carne, as massas, para ficarmos em alguns exemplos dos itens cobertos pela redução de impostos de importação no Brasil, ficarão mais baratos ou menos caros para todos os consumidores. Este efeito poderá, eventualmente, ser combinado com aumento do desemprego, o que representa uma indesejável consequência marginal.

Chegou a hora então de considerar como afeta a inflação as diferentes camadas da população de um país. Para simplificar, consideremos três classes sociais: alta, média e baixa. Sem ser esta uma regra geral, pode-se dizer que a classe alta será marginalmente beneficiada por estas medidas, mas não de modo significativo. Aqui vemos a inelasticidade da demanda em todo seu esplendor. A classe média terá algum espaço de acomodação; alguns segmentos não mudarão muito suas condutas de consumo, outros farão algumas substituições; digamos que esta classe terá uma fraca tendência a ‘apertar o cinto’. As classes menos favorecidas serão seguramente as mais beneficiadas por estas medidas, podendo manter razoáveis padrões de consumo de alimentos e quase certamente fazendo algumas substituições.

O teor do exposto no parágrafo acima nos leva a uma importante conclusão. Medidas desta natureza, além de distorcer o mercado, não contribuem para aquilo que a intervenção do estado deveria perseguir: agir onde a iniciativa privada não chega ou chega distorcida. Portanto, é absolutamente recomendável que os governos intervenham com medidas de auxílio efetivo endereçadas somente àqueles setores que são realmente mais afetados por situações de escassez como as descritas nesta matéria.

  Ricardo Rodil | Lead Partner Capital Markets

Atua há mais de 40 anos na execução, gerenciamento e direção de trabalhos de auditoria e consultoria. Possui sólida experiência em consultoria estratégica a empresas estrangeiras no Brasil, trabalhos de due diligence, assistência pericial de parte em processos judiciais e arbitrais no Brasil e no exterior, conselho fiscal e mediação com especialidade em contabilidade e finanças.

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