Nos primeiros meses de implementação das medidas restritivas com o objetivo de frear a contaminação pelo novo Coronavírus, principalmente em meados de junho de 2020, as previsões eram de que o tombo da economia nacional seria imenso. A projeção do Boletim Focus no último relatório de junho de 2020 era uma queda de 6,54% do PIB nacional no ano corrente. Dentre as previsões oficiais, essa ainda era uma das mais otimistas. Ainda no mês de junho o FMI chegou a estimar que o PIB brasileiro cairia 8% em 2020 e o Banco Mundial, por sua vez, previa uma queda de 9,1%.

Todavia, na medida em que os efeitos da quarentena na economia tornaram-se mais claros e conforme percebeu-se o afrouxamento das políticas de confinamento juntamente com a manutenção de níveis de consumo da população acima do esperado durante o ápice da pandemia, os temores de uma queda colossal na nossa produção nacional foi se arrefecendo.
Nos cabe aqui elucidar os fatores determinantes e fundamentais para frear a derrocada econômica que se vislumbrava nos momentos mais profundos da crise provocada pelo Coronavírus.

Quando se faz comparações macroeconômicas, a maneira mais eficaz de medir políticas e impactos em diferentes países é utilizar economias em fase semelhante de desenvolvimento (conflitar países desenvolvidos com desenvolvidos e emergentes com emergentes), assim como realizar medidas com uso de índices percentuais, para que se evite enviesamento de dados em lugares com diferentes populações.

Desta forma, dadas as características semelhantes de processo de formação e estágio de desenvolvimento econômico dos países latino-americanos, é possível entender a dinâmica de enfrentamento da crise econômico ao cotejar dados destes países.

As nações latino-americanas que anunciaram no começo da pandemia os maiores estímulos fiscais foram o Peru, Brasil, Paraguai e Chile. Tendo em vista os postulados aprendidos desde a Grande Depressão de 29 de que os governos devem ser o agente de estabilização econômica aumentando os seus gastos durante crises com o objetivo de reequilibrar a demanda e a oferta, no uso da chamada política anticíclica, é cabível afirmar que alguns países latino-americanos fizeram a lição de casa, muito embora a “dose do remédio” divergiu entre eles, conforme quadro comparativo:

Atualmente, passado o ápice da crise sanitária pode-se perceber o relativo êxito que houve na implementação das políticas de aumento de gasto público – políticas anticíclicas – para reduzir os reveses ainda mais nocivos que foram causados pelas medidas de confinamento. Em tese, os países que mantiverem os estímulos econômicos por maior tempo conseguirão ter uma recuperação mais rápida.

As medidas tomadas pelo governo brasileiro desde o começo da crise, somando aumentos de despesa e renúncia de receitas, totalizam R$ 605 bilhões. Os gastos totais com auxílio emergencial até o final do ano serão de R$ 321,8 bilhões. O impacto total dos estímulos à economia equivaleu a quase 20 vezes a despesa anual com o Bolsa Família em 2019, que foi de R$ 30 bilhões.

As iniciativas de expansão de crédito adotadas pelo setor público somam um total de R$ 325 bilhões. A concessão de crédito teve como um dos objetivos a complementação do capital de giro das empresas pequenas e médias, fazendo com que fosse possível a manutenção dos pagamentos ordinários, gastos de produção e operação, tais como matéria-prima, salários e aluguéis, dentre outros.

Em média, os esforços fiscais para arrefecer os efeitos da crise do Coronavírus foram de 7,1% do PIB em países desenvolvidos e 4,3% do PIB em países emergentes. O Brasil, por sua vez, fez uma política de aumento dos gastos que representa 8,4% do PIB em 2020, acima da média dos países desenvolvidos e principalmente muito acima da média dos países emergentes.

Tais políticas tiveram capacidade de reduzir os impactos da recessão esperada. Enquanto o Banco Mundial, em seu último relatório prevê uma queda de 7,9% do PIB da América Latina em 2020, para o Brasil queda esperada gira em torno de 5,4%. O segundo Boletim Focus de novembro de 2020 é ainda mais otimista – projeta uma queda do PIB de 4,66%.
A velocidade dessa recuperação está relacionada com o nível do pacote fiscal de estímulo liberado nos períodos mais recessivos da crise, haja vista que a liberação de recursos para a camada mais necessitada da população, via transferência direta de recursos, como o auxílio emergencial financiamentos sem garantias para as empresas por intermédio de maior liquidez no mercado de crédito, são o lubrificante necessário para fazer com que as engrenagens econômicas continuem funcionando tão bem quanto possível.
De acordo com os dados estimados de PIB mensal pelo Banco Central, ocorreu a recuperação em V, de forma que a partir do mês de julho, a retomada superou e forma significativa os primeiros meses do ano de 2020.

Compreendemos, portanto, que a manutenção dos “sinais vitais” de uma economia em momentos de grave recessão por intermédio de uma expansão do gasto público em transferências diretas à população e expansão do crédito ao setor empresarial foi fundamental para reduzir os impactos da queda provocada pela crise do Coronavírus, para que assim também fosse possível, com o relaxamento das medidas de quarentena, o retorno da produção nacional aos seus níveis pré-pandemia.

Por conseguinte, as expectativas são de que os efeitos dessa retração sejam preponderantemente focados no ano de 2020 o crescimento econômico em 2021 será mantido. Há de se ressaltar que o Brasil não pode sucumbir às tentações de tornar o aumento do gasto ora feito algo permanente. Portanto, é fundamental a manutenção da política do teto de gastos, pois somente com um regime fiscal saudável haverá confiança no mercado para realizar os investimentos tão necessários para nosso retorno à trajetória de crescimento.
Ademais, resta a população evitar ao máximo a exposição ao vírus, seguindo os protocolos da OMS e dos Governos, a fim de minimizar uma “segunda onda” da pandemia e, por fim, termos uma perspectiva mais assertiva do processo de vacinação em massa contra a Covid-19, a fim de erradicar de vez com a crise, no futuro próximo.

Por Lucas Pedrosa – Especialista em Gestão Pública

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