Entre os analistas de mercado, parece haver uma unanimidade: fazer previsões para o comportamento dos mercados em 2022 está quase impossível. Logicamente, as explicações são diversas e reais: inflação em nível mundial; aumento das taxas de juros pelos principais bancos centrais no mundo, que redundaria em menor fluxo de investimentos para os países em desenvolvimento; os rumos ainda indefinidos da pandemia de Covid-19, devido ao aparecimento de novas variantes; localmente, grau de polarização nunca antes visto e incertezas típicas de um ano de eleições gerais. E estas são só as principais. Ufa!!!

É chegada a hora de relembrar a clássica piada sobre a definição dos economistas; e olha que sou também formado em Economia! Um economista, dizem, é uma pessoa que fica pensando como irá explicar amanhã porque as previsões que fez ontem não se concretizaram hoje. Mas, independentemente da piada, convenhamos que é muito mais fácil analisar o passado do que tentar adivinhar o que acontecerá no futuro. E uma coisa tem relação com a outra, pois entender o passado pode nos dar alguns caminhos para tentar imaginar como se desenrolarão os eventos do amanhã.

É nesse sentido que nos debruçamos sobre os resultados gerais do mercado de ações brasileiro neste atípico ano de 2021, que acabou de acabar. Ao analisar os dez papéis com melhor desempenho em 2021, sem considerar aquelas empresas que estrearam na Bolsa durante o ano, vemos uma empresa da indústria aeroespacial (Embraer) encabeçando a lista, seguida de uma indústria química (Braskem). É o caso de perguntar: o que faz uma indústria aeronáutica encabeçar a lista, sendo uma atividade que sofreu dois grandes impactos nos anos recentes? O turismo e as viagens de negócios sofreram grande queda devido à pandemia e as companhias aéreas estão seguramente revendo seus planes em função da campanha contra a utilização de combustíveis fósseis, alvo do combate ao aquecimento global. A carteira de pedidos e a ‘decolagem’ da empresa de transporte por drones (EVA) pode ajudar a explicar essa performance.

Nos postos terceiro a décimo, temos quatro empresas que podemos agrupar como ‘de energia’, sendo três de petróleo e gás, e uma de energia elétrica, compreensível agora, mas com dúvidas sobre o médio prazo, já que o aquecimento global deve deslocar o uso de petróleo para formas de energia mais ‘limpa’. A seguir, duas de alimentação (campeões nacionais, obviamente) e duas de siderurgia/metalurgia. Pronto, eis o resumo da tabela. Confesso que estes dados não nos levam a grandes palpites. Cremos que podemos continuar apostando na energia, mas ficando de olho em empresas que tenham, no seu planejamento estratégico, bons planos de ‘switch’ para energia mais sustentáveis. Alimentação deve continuar firme, especialmente pela exportação, já que não se espera um ano brilhante para a economia brasileira, sendo o consumo interno a primeira vítima. Siderurgia/metalurgia, digamos, não fez mais que a obrigação, e deve continuar assim.

Agora vamos aos perdedores. E neste campo é onde vemos mais coerência com as nossas percepções do cotidiano. Os quatro primeiros postos, com quedas que vão de 71% a 58%, foram ocupados por empresas de varejo, assim como o décimo, com queda de 45%. Desempenhos esperados quando vemos os números da inflação e do desemprego e sua influência sobre o consumo das famílias e se pensamos que o desempenho operacional da empresa e a percepção do mercado sobre seu futuro tem relação com a cotação dos seus papéis na Bolsa. O que implicaria em pensar que pode ser feita uma correlação mais ou menos perfeita entre raciocínio e investimento. Coisa da qual deve-se duvidar muito.

Ainda falando dos perdedores, vemos que o resto do ‘ranking’ se distribui entre uma incorporadora imobiliária (aliás, de longa tradição, empresa de família e com unidades habitacionais de qualidade), uma indústria de perfumaria, uma de resseguros (êpa, acho que entreguei o ouro), uma operadora de saúde e um grupo educacional. Este último um tanto incompreensível, dado o bom desempenho do setor em nosso país e levando em conta o movimento de fusões e aquisições que essa atividade vem observando na última década ou mais.

A análise resumida acima está medianamente baseada em raciocínios lógicos, em observações dos respectivos setores e da informação geral que temos sobre o comportamento atual e esperado da economia brasileira. Levando-se em consideração o que poderíamos chamar de ‘insensatez do mercado’ e a atitude dos ‘players’ que podemos qualificar de ‘apostadores da Bolsa’, tudo que está dito arrisca seriamente ir por água abaixo.

E vamos ficando por aqui. Os fãs de cinema diriam que se trata de uma história com ‘final aberto’, mas acreditamos firmemente que é o único final que podemos colocar por enquanto. Feliz 2022 e bons investimentos! As entradas dos estrangeiros na B3 neste início de ano e as consequências da invasão da Ucrânia por tropas russas ficam para a continuação deste ensaio.

  Ricardo Rodil | Lead Partner Capital Markets

Atua há mais de 40 anos na execução, gerenciamento e direção de trabalhos de auditoria e consultoria. Possui sólida experiência em consultoria estratégica a empresas estrangeiras no Brasil, trabalhos de due diligence, assistência pericial de parte em processos judiciais e arbitrais no Brasil e no exterior, conselho fiscal e mediação com especialidade em contabilidade e finanças.

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