O mundo está ficando cada vez mais complicado, apesar do nome da canção eternizada pelo impagável Louis Armstrong e que dá título a esta elucubração. Neste pequeno artigo, quero resumir as obrigações crescentes de fornecimento de informações pelas empresas em geral e me concentrar no impacto que essas obrigações podem ter nas pequenas e médias empresas no Brasil e no mundo. E deixar visível o paradoxo com que os organismos que lidam com os princípios internacionais de contabilidade e informação financeira acabaram nos presenteando.

É inegável que, nas atuais circunstâncias de problemas ambientais enfrentados pela humanidade, é lógico que os governos e esses organismos se preocupem com medidas de sustentabilidade e que exijam das pessoas, sejam físicas ou jurídicas, atitudes que conduzam a evitar males maiores.

Devemos também levar em conta que a IFRS Foundation criou, em fines de 2021, um corpo específico (o ISSB – International Sustainability Standards Board) com o objetivo de elaborar normas destinadas a refletir os aspectos de sustentabilidade nas informações financeiras das empresas. Este corpo técnico, no primeiro trimestre de 2022, colocou em audiência pública duas minutas sobre estes temas, codificadas como IFRS S1 e IFRS S2, com os títulos de “Requisitos gerais para divulgação de informação financeira relacionada com a sustentabilidade” e “Divulgações relacionadas com aspectos climáticos” respectivamente, na tradução livre do inglês.

Pois bem, uma importante questão que eu levanto é que essas entidades, em geral, ‘miram’ as grandes empresas e elaboram normas de conduta e de informação financeira que tem certa complexidade. Nada contra; isso é necessário, mas há uma circunstância que essas entidades não parecem ter compreendido na sua plenitude: a maior parte dos empregos e da produção mundial de produtos e serviços provém de pequenas e médias empresas, incluídas nesse contexto as empresas individuais ou trabalhadores autônomos. Ergo, o maior impacto ambiental pelo uso dos recursos naturais escassos é causado por uma infinidade de pequenas e médias entidades (empreendimentos, digamos) que dificilmente são alcançadas ou têm a oportunidade e a capacidade de aplicar as referidas normas.

É preciso relembrar, neste ponto, que as normas de informação financeira, que incluem normas contábeis e de divulgação das atividades empresariais, são endereçadas para empresas ou entidades que elaboram demonstrações financeiras para ‘uso geral’, o que abrange uma série de ‘stakeholders’, tais como: bancos, credores, potenciais investidores, diversos níveis governamentais, etc. Convenhamos que a grande maioria das pequenas e médias empresas e entidades não têm esse tipo de usuários no seu horizonte e campo de atuação e, muitas vezes, nem preparam demonstrações financeiras completas, devidamente complementadas com notas explicativas.

Levando-se em consideração o exposto até aqui, convém colocar um alerta: o ‘imbroglio’ ambiental em que estamos requer que todas as entidades que utilizam recursos econômicos escassos e que têm algum impacto ne meio ambiente se unam nos esforços de reduzir a velocidade com que, eventualmente, nos aproximamos da hecatombe. Então, mesmo entendendo que é muito difícil que as normas acima referidas passem a ser exigidas e cumpridas pela grande maioria das pequenas e médias empresas, trata-se de um imperativo do qual o mundo não pode fugir.

Chegamos assim a uma conclusão geral: todas as entidades que utilizam recursos econômicos devem prestar contas do impacto ambiental que suas atividades geram e das medidas que estão sendo tomadas para diminuir o tamanho do que tem se dado em chamar de ‘pegada’. E chegamos também a um grande ponto de interrogação: será que pequenas e médias entidades poderão suportar o custo de (i) adaptar suas atividades a processos que tenham a menor ‘pegada’ possível; e (ii) construir os sistemas de controle indispensáveis para fornecer à sociedade o tipo de informação que delas se espera?

Concluo dizendo que nós, contadores e auditores, vamos ter que auxiliar nossos clientes, especialmente aqueles pequenos e médios, a se enquadrar nesta nova realidade com o menor custo possível, de modo a não comprometer a continuidade das suas operações.

  Ricardo Rodil | Lead Partner Capital Markets

Atua há mais de 40 anos na execução, gerenciamento e direção de trabalhos de auditoria e consultoria. Possui sólida experiência em consultoria estratégica a empresas estrangeiras no Brasil, trabalhos de due diligence, assistência pericial de parte em processos judiciais e arbitrais no Brasil e no exterior, conselho fiscal e mediação com especialidade em contabilidade e finanças.

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